EDITORIAL
DOI:
https://doi.org/10.26694/epeduc.v9i2.9336Palabras clave:
Alfabetização e Letramento, Práticas Pedagógicas, Políticas educacionaisResumen
É com grande satisfação que apresentamos o dossiê temático Políticas e práticas de alfabetização no Brasil. Esta coletânea nasce da urgência de reafirmarmos a alfabetização não como uma habilidade técnica isolada, mas como um direito social, um ato político e uma condição para a plena cidadania.
Em um país marcado por profundas desigualdades, a garantia do direito de aprender a ler e a escrever, na infância e ao longo de toda a vida, ainda se configura como uma dívida histórica. Em um cenário atravessado por disputas político-ideológicas e por diferentes concepções sobre o que é alfabetizar, entendemos que discutir políticas e práticas significa discutir que projeto de sociedade e de escola desejamos construir.
Este dossiê reúne, portanto, olhares plurais que transitam entre a Educação Infantil, os anos iniciais e finais do Ensino Fundamental e a Educação de Jovens e Adultos, articulando teoria e prática, pesquisa e extensão, escola e comunidade. São estudos que evidenciam que não há um único caminho para alfabetizar, mas que há um compromisso comum: o de não aceitar o fracasso escolar das crianças e dos sujeitos que mais precisam da escola.
Os trabalhos aqui reunidos são:
O dossiê inicia com o artigo Gramática normativa e ensino: em busca do equilíbrio para a cidadania linguística, de Rita Ferreira Marcelino Vasconcelos e Nize da Rocha Santos Paraguassu Martins, com um resgate histórico necessário. As autoras percorrem as raízes do modelo prescritivo - da Tékhne Grammatiké e da pedagogia de Quintiliano ao Ratio Studiorum - e as articulam com a tradição crítica da linguística aplicada brasileira, de Geraldi (1984) e Perini (1995) a Antunes (2014) e Neves (2025). Defendem, com consistência, uma abordagem normativo-funcional capaz de equilibrar o domínio da norma-padrão e o reconhecimento da variação linguística como condição para a cidadania linguística.
Em uma perspectiva de análise de políticas, o artigo PA-PE-PI, análise de programas de alfabetização de crianças em estados selecionados, de Erinaldo Ferreira do Carmo, realiza um estudo comparativo dos programas de alfabetização na idade certa no Pará, Pernambuco e Piauí. Seus achados são provocadores ao demonstrar que, embora os estados adotem desenhos de políticas semelhantes, os resultados são distintos, e que nem a condição econômica do município nem sua localização geográfica determinam, por si só, o desempenho na alfabetização.
Na sequência, o artigo A transição da educação infantil para o ensino fundamental: buscando ações de continuidade, de Amanda Ferro Galo e Elvira Cristina Martins Tassoni, problematiza um dos momentos mais sensíveis da escolarização. Ao analisar os registros sobre o trabalho pedagógico e as aprendizagens das crianças, as autoras defendem que o simbolismo presente no faz de conta, no desenho e na fala pode e deve ser ponte para uma transição que respeite a infância e garanta a continuidade dos processos de leitura e escrita.
O artigo As contribuições do projeto alfabetização em questão: conhecer para agir e garantir, de Raimunda Alves Melo e Antonia Dalva França-Carvalho apresenta uma pesquisa-ação pedagógica desenvolvida em três eixos - formação continuada, oficinas de alfabetização e produção de um Caderno Pedagógico - e demonstram como a extensão universitária se constitui como espaço privilegiado de práxis formativa, articulando teoria e prática e fortalecendo a identidade docente.
O trabalho Alfabetizar com sonhos: letramento e literatura infantil inspirados em “Malala e seu lápis mágico”, de Ana Letícia Franco de Oliveira e Francisco Renato Lima, nos convida a pensar a alfabetização a partir da literatura. Ao tomar a obra de Malala Yousafzai como eixo, os autores evidenciam que alfabetizar é também alfabetizar com sonhos, valores e consciência social, promovendo uma aprendizagem significativa que une o gosto pela leitura à formação crítica.
O artigo Entre alfabetização tardia e letramento: impactos de um projeto de leitura no contraturno escolar, de Angelita Gomes Fontenele Rodrigues da Cunha e Cacilda Moreira Lima, desloca o olhar para os anos finais do Ensino Fundamental. A partir de uma experiência desenvolvida em uma escola pública da zona rural de Teresina - PI, as autoras evidenciam que projetos de leitura planejados e contextualizados no contraturno são capazes de promover trajetórias de superação, autoestima e garantia do direito ao letramento para adolescentes em situação de alfabetização tardia.
O trabalho Imagens que falam, jogos que ensinam, saberes que libertam: temas geradores na educação de jovens e adultos sob a perspectiva freiriana, de José Souza Moreira, reafirma a atualidade de Paulo Freire. Ao analisar o uso de jogos didáticos a partir de temas geradores na EJA, o autor demonstra que a ludicidade não é acessório, mas estratégia potente para valorizar os saberes dos educandos, engajar e tornar a aprendizagem da leitura e da escrita uma experiência libertadora e vinculada à realidade social.
O dossiê apresenta ainda o relato de experiência Programa Meio Ambiente: Guardiões Ambientais Mirins, de Aurilourdes Alves do Nascimento. A experiência, desenvolvida com crianças do 1º ao 4º ano, revela como a Educação Ambiental pode ser dispositivo potente de alfabetização e letramento. Ao se tornarem guardiãs do ambiente por meio de mutirões, produção de panfletos e visita de campo à comunidade Salgada, as crianças aprenderam a ler o mundo para poder escrever sobre ele, articulando-se aos ODS 4 e 13.
Encerram o dossiê duas resenhas que resgatam clássicos imprescindíveis. Raynara de Oliveira Araújo, ao resenhar A vida na escola e a escola da vida, de Claudius Ceccon, Miguel Darcy de Oliveira e Rosiska Darcy de Oliveira, evidencia a permanência das desigualdades educacionais e a não neutralidade da escola. E Andréia de Sena Rosa Lima, na resenha de Linguagem e escola: uma perspectiva social, de Magda Soares, reafirma a atualidade do pensamento da autora ao articular suas proposições com os dados recentes do SAEB e IDEB, demonstrando como a variação linguística das camadas populares ainda é convertida em mecanismo de exclusão.
Convidamos, assim, à leitura deste dossiê como um convite ao diálogo e à ação. Que os textos aqui reunidos fortaleçam em nós a compreensão de que alfabetizar é um ato de esperança, de compromisso político e de cuidado com o outro e com o mundo.
Boa leitura!
As organizadoras:
Profa. Dra. Raimunda Alves Melo
Profa. Dra. Antonia Dalva França-Carvalho
Citas
SOARES, M. Alfaletrar: toda criança pode aprender a ler e a escrever. São Paulo: Contexto, 2020.



















