A VIOLÊNCIA E O MEDO URBANO E SEU IMPACTO NO PROCESSO DE OCUPAÇÃO ESPACIAL EM SOBRAL-CE
DOI:
https://doi.org/10.26694/reppggeo.v15i3.9198Resumo
Este estudo apresenta resultados de uma pesquisa de mestrado que culminou na dissertação Sobre viver em Sobral-CE: da segregação à estigmatização socioespacial nos territórios da violência e do medo (Freitas, 2019). A investigação analisou como a percepção da violência e o medo urbano influenciaram o processo de ocupação espacial em Sobral-CE, especialmente entre 2014 e 2017, período que marcou a criação e plena ocupação do bairro Caiçara, empreendimento do Programa Minha Casa Minha Vida que beneficiou mais de três mil famílias. Os moradores desse conjunto habitacional foram alvo de estigmatização e discriminação por parte de outros setores da população. O recorte da pesquisa buscou compreender de que maneira essas percepções impactam as escolhas residenciais, a dinâmica do mercado imobiliário e a configuração socioespacial, gerando processos de segregação, autosegregação e estigmatização territorial semelhantes aos observados em grandes centros urbanos, mas aqui contextualizados em uma cidade média situada a cerca de 230 km de Fortaleza. Metodologicamente, aplicou-se um questionário estruturado a uma amostra aleatória simples de 497 moradores, definida com margem de erro de 5% e nível de confiança de 95%. Os dados, que incluíram a avaliação de 45 bairros e comunidades quanto à segurança percebida, foram processados em ambiente de Sistema de Informação Geográfica (QGIS 2.18), resultando na produção de uma cartografia da percepção da violência. A análise revelou padrões espaciais do medo e da insegurança, correlacionados a variáveis como renda, localização e visibilidade midiática. Ancorada teoricamente em autores como Roberto Lobato Corrêa, Marcelo Lopes de Souza e David Harvey, a pesquisa evidencia que, mais do que refletir percepções individuais, os dados revelam um processo estruturado de segregação e autosegregação socioespacial, acompanhado de estigmatização territorial, alinhado ao que se observa em metrópoles brasileiras. Entre os fatores que contribuíram para a consolidação desses processos em Sobral destacam-se a insuficiência na oferta de serviços públicos, a negação de direitos básicos, a ausência de transporte coletivo eficiente, a carência de espaços públicos de lazer e a persistência histórica de relegar as classes populares a áreas periféricas, distantes das zonas de interesse das elites locais.
