CALL FOR PAPERS: FILOSOFAR NO SUL: PROBLEMÁTICAS POLÍTICAS, INSTITUCIONAIS E ÉTICAS

2023-12-15

Eixos de discussão

Com isso em mente, nós convidamos os colegas a uma reflexão conjunta sobre a pluralidade de experiências da prática filosófica, com o objetivo de promover o diálogo entre os países do “Sul”, mas sem excluir alianças com o “Norte”, no que seria uma perversa vingança essencialista. Alguns caminhos de reflexão podem ajudar na nossa orientação:

 

  1. Como devemos compreender as categorias do local e do originário? Como a filosofia contemporânea deve se relacionar com o patrimônio cultural e com a tradição (MBONDA e RONDEAU, 2015), incluindo aí os saberes do período pré-colonial?
  2. As questões relativas à prática filosófica devem ser concebidas numa perspectiva histórico-crítica. As opiniões sobre a relação entre modernidade e colonização variam desde a tese conjuntiva (MIGNOLO e ESCOBAR, 2007) até a tese disjuntiva (TÁÍWÒ, 2010). Há ainda muito por fazer para clarificar as diferentes formas de modernidade e modernização (APPADURAI, 1996; KNÖBL, 2007) e as diferentes formas de colonização e de colonialidade (PAUL e LEANZA, 2020) em suas relações com os diferentes modos de capitalismo. Mas nós precisamos também contextualizar a prática filosófica na política, na sociedade e nas instituições do período pós-independência. A exploração dessas questões abriria uma perspectiva sobre os problemas persistentes de raça, de classe e de formas de humilhação internalizada, as quais frequentemente se sobrepõem (MUNANGA, 2020).
  3. Quais filosofias, formalizadas ou não, foram propostas por nossos antecessores? Como podemos integrá-las no currículo? O que nós podemos aprender com estratégias intelectuais tais como o “canibalismo” (ANDRADE, 1928) e a “transfuncionalização” (EBOUSSI BOULAGA, 1977)? Nessa direção, o trabalho fornecerá num dagnóstico da herança ocidental: o que é hegemônico e o que poderia ainda ser reaproveitado de maneira produtiva (SOUZA SANTOS, 2014)?
  4. Em função de quais orientações normativas devemos reconsiderar a prática filosófica? Expressões tais como “afirmação de si”, “justiça cognitiva”, “bem comum”, “democracia radical” e “proteção do meio-ambiente” vêm à mente, mas precisam ser especificadas. E como compreender a relação entre a filosofia – e as ciências humanas e sociais em geral – e o engajamento ativo em resposta a essas reivindicações normativas? A educação e a participação na formação da opinião pública seriam suficientes, ou os filósofos devem ainda, na sua condição de professores, se engajar em mudanças estruturais, ou mesmo no ativismo? (ALMEIDA, 2018; RIBEIRO, 2019)?
  5. As instituições nos colocam em contato com os estudantes e facilitam nosso trabalho, porém sua inércia restringe nossa prática e sua estrutura de autoridade não raro impõe autocensura. Nós precisamos de diagnósticos desses problemas – quer sejam herdados ou mais recentes – e de sugestões práticas sobre como transformar as instituições em instrumentos que facilitem nossas iniciativas.
  6. Quanto mais nós enfatizamos que a filosofia é situada, mais a nossa relação com as filosofias que são situadas de forma diferente da nossa levanta questões. Quais termos deveríamos utilizar para conectar essas experiências e necessidades divergentes: universalismo, pluriversalismo, uniformidade, generalidade, diálogo, hidridismo...? Como partilhar pontos de vista e encontrar questões comuns, sem essencializar o Sul e seus povos, como aliás o faz todo pensamento chauvinista?

 

Comissão científica

 

Profa. Cristina Amaro Viana (Universidade Federal de Alagoas, Brasil)

Prof. Ernst Wolff (KU Leuven, Bélgica)

Profa. Amélie Aristelle Ekassi (École Normale Supérieure de Yaoundé, Camarões)

 

Instruções para submissão de propostas

 

  • Nós convidamos as pesquisadoras e pesquisadores que desejam participar desta edição especial da Revista Pensando a manifestar seu interesse até o dia 20 de fevereiro de 2024, enviando um breve resumo que pode ser submetido em francês, em português e em inglês. O resumo deve ser redigido no formato WORD, conter em torno de 300 palavras e ser acompanhado de um título, de uma bibliografia indicativa, de 05 (cinco) palavras-chaves e de uma curta nota biográfica do/a/s autor/a/s. Os resumos devem ser encaminhados para os seguintes e-mails: ekassiamelie@yahoo.fr, wolff@kuleuven.be, cristina.viana@ichca.ufal.br. Os autores que eventualmente perderem este prazo para manifestar interesse poderão ainda solicitar a possibilidade de submeter seu artigo, sendo que seu nome poderá ser colocado numa lista de espera.
  • A submissão do artigo final deverá ser feita pelo portal da Revista Pensando até o dia 25 de abril de 2024. É imperativo seguir criteriosamente as instruções destinadas aos autores disposnibilizadas no seguinte endereço: https://periodicos.ufpi.br/index.php/pensando/about/submissions.

 

Bibliografia

 

Appadurai, Arjun, Modernity at large: cultural dimensions of globalization. Minneapolis: University of Minnesota, 1996.

Almeida, Silvio Luiz, O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018.

Andrade, Oswald de. Manifesto Antropófago. In: Revista de Antropofagia 1/1, May 1928.

Arantes, Paulo Eduardo. Um departamento francês de Ultramar: Estudos sobre a formação da cultura filosófica uspiana. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.

Castro-Gómez, Santiago, (Post)Coloniality for Dummies: Latin American Perspectives on Modernity, Coloniality, and the Geopolitics of Knowledge. In: Coloniality at Large: Latin America and the Postcolonial Debate. Moraña, Mabel, DUSSEL, Enrique, Jáuregui, Carlos A. (Eds.). New York: Duke University Press, 2008.

Césaire, Aimé, Discours sur le colonialisme. Paris: Présence africaine, 1955.

Eboussi Boulaga, Fabien. La Crise du muntu. Authenticité africaine et philosophie. Paris: Présence africaine, 1977.

Knöbl, Wolfgang. Die Kontingenz der Moderne. Wege in Europa, Asien und Amerika. Frankfurt: Campus, 2007.

Mbonda, Ernest-Marie; Rondeau, Dany. La Contribution des savoirs locaux à l’éthique, au politique et au droit, Québec: Presses Universitaires de Laval, 2015.

Marques,  Lúcio Álvaro. Formas da filosofia brasileira. Cachoeirinha: Editora Fi, 2023.

Mendieta, Eduardo (Ed.). Latin American Philosophy. Currents, Issues, Debates. Bloomington: Indiana UP, 2003.

Mignolo, Walter; Escobar, Arturo (Eds.). Globalization and the de-colonial option. London, New York: Routledge, 2007.

Mignolo, Walter; Walsh, Cathérine. On Decoloniality. Concepts, Analitics, Praxis, Durham and London: Duke University Press, 2018.

Mudimbe, Valentin Yves. The invention of Africa: gnosis, philosophy, and the order of knowledge, Bloomington: Indiana University Press, 1988.

Munanga, Kabengele, Negritude: Usos e sentidos. São Paulo: Autêntica, 2020.

Paul, Axel; Leanza, Matthias (Eds.). Comparing Colonialism: Beyond European Exceptionalism. Leipzig: Leipziger Universitätsverlag, 2020 (Comparativ. Zeitschrift für Globalgeschichte und vergleichende Gesellschaftsforschung 30 (2020) 3/4).

Ribeiro, Djamila. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Cia. Das Letras, 2019.

Sousa Santos, Boaventura de. Epistemologies from the South. Justice against Epistemicide. Boulder: Paradigm, 2014.

Táíwò, Olúfẹ́mi. How colonialism pre-empted modernity in Africa. Bloomington: Indiana University Press, 2010.

Wiredu, Kwasi (Ed.). Blackwell Companion to African philosophy. Oxford: Blackwell, 2004.