Dossiê 2028.1 (Sempre vítimas? Mulheres, uso da força e produção de subjetividades)

2026-03-25

Convidamos os(as) pesquisadores(as) a submeter artigos ao dossiê: “Sempre vítimas? Mulheres, uso da força e produção de subjetividades”.

Proponentes/Organização: Nádia Xavier Moreira, Débora Antonieta Silva Barcellos Teodoro e Nilza Rogéria de Andrade Nunes

 

Apresentação e Justificativa

A antropologia contemporânea tem demonstrado crescente interesse em compreender as múltiplas formas de violência e suas implicações na produção de relações sociais, subjetividades e regimes morais (Das, 2007; Bourgois; Scheper-Hughes, 2004; Feldman, 1991). Tradicionalmente, grande parte das análises sobre violência esteve centrada nas experiências masculinas ou na representação das mulheres sobretudo como vítimas de estruturas violentas (Scheper-Hughes, 1992; Segato, 2016). Nos últimos anos, entretanto, a literatura antropológica tem buscado ampliar esse enquadramento analítico, explorando as formas pelas quais mulheres vivenciam, interpretam e atuam em contextos atravessados por violência, poder e conflito (Goldstein, 2013; Mahmood, 2005). Ainda assim, permanece relativamente incipiente o número de investigações nas ciências sociais dedicadas a compreender outras dimensões das experiências femininas em contextos de conflito, cuidado, defesa, resistência e exercício da força, incluindo práticas de agência, negociação e produção de autoridade em diferentes regimes morais e políticos (Das, 2007; Mahmood, 2005; Segato, 2016).

Este dossiê propõe reunir contribuições que examinem criticamente as diferentes formas pelas quais mulheres se relacionam com a violência, seja como agentes, mediadoras, protagonistas ou intérpretes de situações de conflito. Ao deslocar o foco exclusivamente vitimizador, tais abordagens revelam que o uso da força por mulheres frequentemente perturba expectativas normativas de gênero e desafia concepções consolidadas sobre moralidade, cuidado, maternidade, política e autoridade.

Nesse sentido, colocamos a indagação: Sempre vítimas? que aponta para o caráter desestabilizador de outras possibilidades de ação social. Quando mulheres exercem ou mobilizam a força, tensionam imaginários que associam feminilidade à passividade, à domesticidade ou à abnegação, evidenciando como as normas de gênero são historicamente construídas e politicamente disputadas (Strathern, 1988; Butler, 2004). Nessas situações, suas ações frequentemente suscitam reações morais, jurídicas e políticas que buscam reinterpretar, legitimar ou condenar tais práticas, revelando disputas em torno dos limites socialmente aceitáveis da ação feminina e das formas legítimas de exercício da violência ou da autoridade (Fassin; Rechtman, 2009; Aretxaga, 1997).

Em contextos etnográficos diversos, desde territórios urbanos marcados por desigualdades até cenários de conflito político, mobilizações coletivas, práticas de autodefesa ou disputas cotidianas, as experiências femininas evidenciam complexos regimes de moralidade, afetos e justificações sociais, mostrando que as mulheres podem atuar como agentes ativas na produção e na negociação das relações de poder (Navaro-Yashin, 2012; McClintock, 1995).

Estudos antropológicos e feministas têm demonstrado que a violência não pode ser compreendida apenas como um evento excepcional ou desviante, mas como parte constitutiva de processos sociais, relações de poder e práticas de governo (Das, 2007; Bourgois; Scheper-Hughes, 2004). Nesse sentido, analisar a participação de mulheres em situações de violência permite explorar dimensões frequentemente invisibilizadas da vida social, como as articulações entre cuidado, sofrimento, autoridade moral e resistência. Ao mesmo tempo, tais pesquisas evidenciam como gênero, classe, raça e etnicidade configuram diferentes regimes de legitimidade e reconhecimento para o uso da força.

No campo da antropologia feminista, autoras como Judith Butler (2004), Veena Das (2007), Rita Segato (2016) e Nancy Scheper-Hughes (1992) têm destacado que a violência está profundamente vinculada à produção de hierarquias sociais e à regulação de corpos e afetos. Noutra vertente crítica, Federici (2017) historiciza formas de controle sobre os corpos femininos, enquanto Scott (2017) e Butler (2018) contribuem para pensar as expectativas performativas atribuídas ao gênero e sua construção social.

Ao mesmo tempo, estudos etnográficos recentes mostram que mulheres também podem mobilizar a violência como forma de proteção, reivindicação política ou defesa de si e de suas comunidades. Pesquisas em diferentes contextos sociais evidenciam que a participação feminina em práticas de confronto, segurança comunitária ou mobilização armada não apenas responde a condições específicas de vulnerabilidade ou conflito, mas também constitui um campo de produção de subjetividades políticas e de renegociação das normas de gênero (Peteet, 1991; Nordstrom, 1997; Al-Ali; Pratt, 2009). Nesses contextos, práticas como autodefesa, militância armada, confrontos cotidianos ou estratégias de enfrentamento tornam-se espaços de redefinição de papéis sociais e de construção de novas formas de autoridade e pertencimento coletivo (MacKenzie, 2012; Coulter, 2009).

Pesquisas realizadas em contextos urbanos latino-americanos, por exemplo, mostram como mulheres em situações de precariedade elaboram repertórios morais complexos ao lidar com conflitos familiares, proteção de crianças e disputas territoriais (Fernandes, 2017; Castilla, 2020). Em tais cenários, a violência pode emergir como parte de práticas de cuidado ou de defesa da dignidade, revelando tensões entre normas sociais e experiências vividas. De modo semelhante, estudos sobre participação feminina em movimentos políticos ou conflitos armados indicam que o engajamento na luta armada frequentemente desafia representações dominantes de gênero e produz narrativas ambivalentes sobre heroísmo, sacrifício e transgressão (Freedman, 2016).

Além disso, a análise antropológica da violência exercida ou mobilizada por mulheres permite problematizar os modos como instituições jurídicas, políticas e internacionais interpretam tais práticas. Muitas vezes, essas instituições reproduzem enquadramentos normativos que reforçam estereótipos de gênero, classificando determinadas formas de violência feminina como patológicas, excepcionais ou moralmente desviantes. Investigar etnograficamente essas situações possibilita compreender como discursos institucionais, midiáticos e jurídicos disputam significados sobre legitimidade, responsabilidade e agência.

Nesse sentido, este dossiê busca reunir trabalhos que examinem criticamente as múltiplas relações entre gênero, violência, cuidado, política e subjetividade, a partir de abordagens etnográficas ou análises teórico-empíricas. Interessa particularmente compreender como práticas de força e conflito mobilizadas por mulheres desestabilizam regimes normativos de gênero e produzem novas formas de ação social, moralidade e reconhecimento.

Serão especialmente bem-vindas contribuições que abordem, entre outros, os seguintes eixos temáticos:

  • Mulheres e uso da força em contextos cotidianos, como disputas familiares, conflitos comunitários ou dinâmicas de cuidado e proteção;
  • Autodefesa feminina e práticas de proteção coletiva, incluindo movimentos sociais, redes comunitárias e estratégias de segurança;
  • Participação de mulheres em conflitos armados, movimentos políticos ou militância, explorando as dimensões simbólicas e subjetivas do engajamento;
  • Violência, maternidade e cuidado, examinando como práticas consideradas violentas podem ser interpretadas como formas de proteção ou responsabilidade moral;
  • Regimes morais e julgamentos sociais sobre violência feminina, incluindo discursos midiáticos, jurídicos ou institucionais;
  • Interseccionalidades entre gênero, raça, classe e etnicidade na produção e interpretação da violência;
  • Corpo, emoções e afetos nas experiências de violência, explorando dimensões sensoriais e subjetivas da ação;
  • Narrativas, memórias e representações culturais da violência feminina em diferentes contextos sociais.

 

Referências

AL-ALI, Nadje; PRATT, Nicola. What kind of liberation? Women and the occupation of Iraq. Berkeley: University of California Press, 2009.

ARETXAGA, Begoña. Shattering silence: women, nationalism, and political subjectivity in Northern Ireland. Princeton: Princeton University Press, 1997.

BOURGOIS, Philippe; SCHEPER-HUGHES, Nancy (orgs.). Violence in war and peace: an anthology. Oxford: Blackwell, 2004.

BUTLER, Judith. Undoing gender. New York: Routledge, 2004.

BUTLER, Judith. Notes toward a performative theory of assembly. Cambridge: Harvard University Press, 2018.

CASTILLA, Kaly. (referência aproximada — confirmar edição específica utilizada).

COULTER, Chris. Bush wives and girl soldiers: women's lives through war and peace in Sierra Leone. Ithaca: Cornell University Press, 2009.

DAS, Veena. Life and words: violence and the descent into the ordinary. Berkeley: University of California Press, 2007.

FASSIN, Didier; RECHTMAN, Richard. The empire of trauma: an inquiry into the condition of victimhood. Princeton: Princeton University Press, 2009.

FELDMAN, Allen. Formations of violence: the narrative of the body and political terror in Northern Ireland. Chicago: University of Chicago Press, 1991.

FEDERICI, Silvia. Caliban and the witch: women, the body and primitive accumulation. New York: Autonomedia, 2017.

FERNANDES, Flávia. (confirmar obra específica utilizada).

FREEDMAN, Jane. Gender, violence and politics in the Democratic Republic of Congo. London: Routledge, 2016.

GOLDSTEIN, Donna. Laughter out of place: race, class, violence, and sexuality in a Rio shantytown. Berkeley: University of California Press, 2013.

MAHMOOD, Saba. Politics of piety: the Islamic revival and the feminist subject. Princeton: Princeton University Press, 2005.

MACKENZIE, Megan. Female soldiers in Sierra Leone: sex, security, and post-conflict development. New York: New York University Press, 2012.

MCCLINTOCK, Anne. Imperial leather: race, gender and sexuality in the colonial contest. New York: Routledge, 1995.

NAVARO-YASHIN, Yael. The make-believe space: affective geography in a postwar polity. Durham: Duke University Press, 2012.

NORDSTROM, Carolyn. A different kind of war story. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1997.

PETEET, Julie. Gender in crisis: women and the Palestinian resistance movement. New York: Columbia University Press, 1991.

SCHEPER-HUGHES, Nancy. Death without weeping: the violence of everyday life in Brazil. Berkeley: University of California Press, 1992.

SCOTT, Joan W. Sex and secularism. Princeton: Princeton University Press, 2017.

SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016.

STRATHERN, Marilyn. The gender of the gift: problems with women and problems with society in Melanesia. Berkeley: University of California Press, 1988.