Dossiê 2027.1 (Parentesco, Temporalidades e Gerações: pesquisas socioantropológicas sobre transmissões, memórias e substâncias na América do Sul)
Convidamos os(as) pesquisadores(as) a submeter artigos ao dossiê: “Parentesco, Temporalidades e Gerações: pesquisas socioantropológicas sobre transmissões, memórias e substâncias na América do Sul”
Proponentes/Organização: Aline Lopes Murillo, Juliana Caruso Pereira Lima, Soledad Gesteira e Carlos Filadelfo
Apresentação e justificativa
O parentesco, desde os estudos clássicos da antropologia (Morgan, 1871; Radcliffe-Brown, 1952; Lévi-Strauss, 1955) até os debates contemporâneos (Schneider, 1984; Strathern, 1988, 1992, 1999; Carsten, 1995, 2000, 2004, 2013; Cadoret, 2003; Finkler, 2005; Franklin, 2013; Allebrandt, 2015; Fonseca, 2015; Martial, 2022), é atravessado por temporalidades que tensionam a transmissão entre gerações, a construção de identidades e a formulação de pertencimentos. Perguntar pelos efeitos do tempo no parentesco – o que se transmite entre gerações, como ausências e presenças impactam a vida social e política e como reivindicações se configuram por meio de laços familiares – abre caminhos para revisitar categorias como memória, substância, tecnologias reprodutivas, origem e identidades.
Nos últimos anos, observa-se um renovado interesse em compreender como experiências de antepassados marcam a vida das gerações seguintes, não apenas na biografia familiar, mas também nas esferas pública, política e jurídica. Seja na luta pelo direito à identidade, nas reivindicações por justiça em contextos de violência de Estado, nos debates sobre adoção e ancestralidades genéticas ou nas discussões sobre cuidados, maternidades, paternidades e sucessões, a dimensão temporal do parentesco tem se mostrado um prisma fecundo para compreender a vida social.
O dossiê busca reunir pesquisas que abordem etnograficamente a relação entre parentesco, temporalidade e gerações, explorando conexões com o passado e o futuro e as ausências ou interrupções no fluxo geracional que marcam subjetividades, identidades e práticas sociais. Partimos da questão sobre o que é transmitido através do tempo e das relações familiares, atentos aos usos políticos e biomédicos do parentesco e ao modo como experiências de antepassados impactam a vida de descendentes e estruturam reivindicações entre gerações. Interessa-nos pensar como se fabricam relações para além do presente, analisando conexões projetadas ao passado e ao futuro e as transmissões de substância, memória, nomes, aparências, materialidades ou afetos que configuram modos específicos de estar e agir no mundo.
Ao mesmo tempo, o dossiê propõe refletir sobre a centralidade dos conceitos de geração, substância e memória, oriundos de tradições analíticas do norte global, e sobre como essas categorias vêm sendo apropriadas, (re)elaboradas e transformadas em diferentes contextos etnográficos, com ênfase no sul global. Adoção, direito à identidade, busca de origens familiares, estudos de DNA e ancestralidade, relações conjugais, maternidades, paternidades, famílias recompostas, sucessão e hereditariedade, territorialidade, cuidados e racializações são hoje objetos de análise que convidam a pensar como esses termos adquirem novos significados e deslocamentos em relação às abordagens clássicas. Perguntamo-nos, nesse sentido, como temos ampliado as possibilidades de compreensão das relações familiares e de parentesco a partir de situações etnográficas singulares e de debates locais e globais.
Essa proposta surge como continuidade de discussões desenvolvidas pelas pessoas organizadoras em grupos de trabalho, colóquios, disciplinas e seminários realizados nos últimos anos em diferentes espaços acadêmicos na América do Sul. Com este dossiê buscamos ampliar os diálogos desenvolvidos com estudantes e pesquisadoras/es nessas ocasiões para um público mais amplo, reunindo trabalhos que problematizem as transmissões intergeracionais e as reelaborações conceituais em torno do parentesco. Pretende-se criar um espaço de interlocução que congregue pesquisas diversas que, a partir de diferentes campos empíricos, analisem como o parentesco é atravessado pelo tempo, pela memória, pela presença ou ausência de vínculos, pela materialidade da substância e pelas políticas do Estado e da família.
Para assegurar densidade analítica e pluralidade às discussões, o dossiê contará, além das contribuições recebidas pela chamada pública, com a submissão previamente confirmada de artigos de pesquisadoras reconhecidas no campo dos estudos de parentesco, cientes de que seus textos serão submetidos aos mesmos procedimentos de avaliação por pares que regerão o conjunto do dossiê.
Bibliografia sugerida
Allebrandt, Debora. 2015. “La science de la parenté: Adoption, génétique et identité parmi les adoptés au Brésil.” Vibrant 12 (1): 141–166. https://doi.org/10.1590/1809-43412015v12n1p141.
Cadoret, Anne. 2003. Padres como los demás: homosexualidad y parentesco. Barcelona: Gedisa.
Carsten, Janet. 1995. “The Substance of Kinship and the Heat of the Hearth: Feeding, Personhood, and Relatedness among Malays in Pulau Langkawi.” American Ethnologist 22 (2): 223–241.
Carsten, Janet. 2000. “Introduction: Cultures of Relatedness.” In Cultures of Relatedness: New Approaches to the Study of Kinship, edited by Janet Carsten. Cambridge: Cambridge University Press.
Carsten, Janet. 2004. After Kinship. Cambridge: Cambridge University Press.
Carsten, Janet. 2013. “Introduction.” In Blood Will Out: Essays on Liquid Transfers and Flows, edited by Janet Carsten. Journal of the Royal Anthropological Society.
Caruso, Juliana P. Lima. 2017. De l’autre côté de l’île: Parenté et identité dans sept communautés caiçaras du Sud-est brésilien. Tese de doutorado, École Pratique des Hautes Études. https://theses.fr/2017PSLEP031.
Filadelfo, Carlos. 2022. “O tempo do mutirão: sentidos e (re)arranjos de família e casa entre mutirantes em um bairro periférico de São Paulo.” Revista de Antropologia 65. https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.2022.192798.
Finkler, Kaja. 2005. “Family, Kinship, Memory and Temporality in the Age of the New Genetics.” Social Science & Medicine 61 (5): 1059–1071. https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2005.01.002.
Fonseca, Claudia. 2015. “Time, DNA and Documents in Family Reckonings.” Vibrant 12 (1): 75–108. https://doi.org/10.1590/1809-43412015v12n1p075.
Franklin, Sarah, and Susan McKinnon, eds. 2001. Relative Values: Reconfiguring Kinship Studies. Durham: Duke University Press.
Gesteira, Soledad. 2016. Entre el activismo y el parentesco: lo público, lo íntimo y lo político. Las organizaciones sociales de personas que buscan sus orígenes. Tese de doutorado, Universidad de Buenos Aires. http://repositorio.filo.uba.ar/handle/filodigital/4597.
Lévi-Strauss, Claude. 1955. Les structures élémentaires de la parenté. Paris: Presses Universitaires de France.
Martial, Agnès. 2022. “Une ‘parenté pour soi’? La quête des origines en adoption.” Anthropologie et Sociétés 46 (2): 101–118. https://doi.org/10.7202/1093989ar.
Morgan, Lewis Henry. 1871. Systems of Consanguinity and Affinity of the Human Family. Washington: Smithsonian Institution.
Murillo, Aline Lopes. 2023. Pessoas memoriais: práticas de parentesco e política na Argentina. Tese de doutorado, Universidade de São Paulo. https://repositorio.usp.br/item/003175268.
Paula, Camila Galan de. 2025. Passados e presenças: “índios”, tempo e história em Coronel José Dias, Piauí. Tese de doutorado, Universidade de São Paulo. https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-30012025-133214/publico/2025_CamilaGalanDePaula_VCorr.pdf.
Radcliffe-Brown, Alfred R. 1952. Structure and Function in Primitive Society. London: Cohen & West.
Schneider, David. 1984. A Critique of the Study of Kinship. Ann Arbor: University of Michigan Press.
Strathern, Marilyn. 1988. The Gender of the Gift: Problems with Women and Problems with Society in Melanesia. Berkeley: University of California Press.
Strathern, Marilyn. 1992. After Nature: English Kinship in the Late Twentieth Century. Cambridge: Cambridge University Press.
Strathern, Marilyn. 1999. Property, Substance and Effect: Anthropological Essays on Persons and Things. London: Athlone Press.










